A tensão que também faz parte da música
Disson nasceu entre as notas.
Na Cidade Harmonia, nem todo som precisa ser calmo, previsível ou perfeitamente consonante. A música também vive de surpresas, tensões, movimentos e caminhos inesperados.
Algumas notas parecem repousar quando se encontram. Outras parecem pedir que alguma coisa aconteça depois.
Existem sustenidos, bemóis e bequadros que alteram temporariamente o caminho das notas. Existem intervalos que provocam tensão. Existem acordes diminutos que parecem suspender a música por alguns instantes. E existem dissonâncias que fazem nossos ouvidos perguntarem:
“E agora... para onde essa música vai?”
Foi nesse lugar, entre a tensão e a resolução, que Disson surgiu.
Ele não nasceu mau.
Na verdade, Disson nasceu de algo que sempre fez parte da própria música: a dissonância.
Por isso, ele é diferente dos Luminhos. Enquanto Cadó, Deri, Emi, Fáza, Goli, Ali e Bisi representam as sete notas que iluminam a Cidade Harmonia, Disson parece viver nos espaços entre elas, nas combinações inesperadas, nos acidentes, nas tensões e nas possibilidades que aparecem quando uma nota encontra outra.
E talvez seja justamente por isso que ele seja tão estranho... e tão interessante.
Disson é um grande colecionador de notas.
Ele anda pela Cidade Harmonia com sua bolsa rosa atravessada no corpo, procurando sons, melodias, notas diferentes e combinações que despertem sua curiosidade.
Quando encontra uma nota interessante, ele a observa, escuta e confere sua referência com o diapasão que carrega no pescoço.
Quando está tranquilo, Disson é engraçado, atrapalhado, curioso e até meio bobão. Seus olhos enormes entregam suas emoções, seus fios tortos parecem cordas musicais que nunca conseguem ficar completamente no lugar, e sua bolsa permanece aberta para receber novas notas.
Ele gosta especialmente das notas inesperadas.
Talvez porque ele próprio seja uma delas.
Mas Disson tem um problema.
Ele não suporta o descuido.
Quando alguém toca sem prestar atenção, abandona o ritmo, não escuta os outros, faz tudo com preguiça ou simplesmente decide fazer “de qualquer jeito”, alguma coisa acontece dentro dele.
Disson começa a perder sua própria referência.
E quanto mais perde a referência, mais desafinado emocionalmente ele fica.
Quando Disson perde a afinação
O diapasão lilás que normalmente brilha em seu peito começa a ficar vermelho.
Seus olhos mudam.
Seus fios ficam ainda mais retorcidos.
As garras aparecem.
A bolsa rosa se fecha.
E uma fumaça violeta começa a envolver seu corpo.
Nesse estado, Disson deixa de conseguir distinguir aquilo que é diferente daquilo que é simplesmente descuidado.
E esse é o verdadeiro problema.
Porque uma nota diferente pode ser maravilhosa.
Uma dissonância pode ser linda.
Um acorde diminuto pode transformar completamente uma música.
Um acidente musical pode abrir um caminho que ninguém esperava.
Mas quando Disson perde o controle, ele começa a querer expulsar tudo aquilo que não corresponde imediatamente à referência que está ouvindo.
É nesse momento que os Luminhos precisam ajudá-lo a se lembrar:
Ser diferente não é estar errado.
E, principalmente:
Dissonância não é desafinação.
Essa distinção pode se tornar um dos fundamentos pedagógicos mais bonitos do universo.
Três coisas que Disson nos ajuda a compreender
No Mundo dos Luminhos, podemos ensinar três ideias diferentes por meio dele:
O acidente musical é a surpresa.
Sustenido, bemol e bequadro podem mudar temporariamente o caminho de uma nota. Eles não são “acidentes” no sentido de algo que deu errado; fazem parte da linguagem musical.
A dissonância é a tensão.
Ela provoca movimento, expectativa e desejo de continuação. Às vezes resolve; às vezes permanece como cor. Ela também pertence à música.
A desafinação é a perda da referência.
E aqui está a grande metáfora de Disson: quando ele perde sua referência, não é apenas musicalmente que fica desafinado. Suas emoções também ficam desafinadas.
Isso conecta música e educação emocional de maneira muito natural.
Por isso o diapasão é provavelmente o objeto mais importante de Disson.
Ele não é apenas um acessório.
É sua referência.
Quando Disson está equilibrado, o diapasão brilha em lilás. Ele consegue ouvir, comparar, perceber diferenças e continuar curioso.
Quando começa a perder o controle, o diapasão fica vermelho.
Não porque Disson tenha se tornado mau.
É um alerta:
Disson perdeu sua referência.
E isso permite uma frase muito boa para as histórias:
“Disson, escute sua referência!”
A criança pode começar a entender que, quando nossas emoções ficam muito intensas, também precisamos reencontrar uma referência antes de agir.
A fumaça também passa a ter uma função específica.
Disson não vive permanentemente como fumaça. Seu corpo é físico como já definimos.
A névoa violeta aparece principalmente em três situações: quando ele surge, quando desaparece e quando suas emoções ficam descontroladas.
Quanto mais irritado fica, mais fumaça aparece.
E quando rejeita uma nota por estar completamente tomado pela raiva, aquela nota pode se desfazer visualmente em fumaça.
Isso cria uma linguagem visual que a criança reconhecerá imediatamente:
pouca fumaça → tensão surgindo;
muita fumaça → Disson está perdendo o controle.
A bolsa também conta a história sem precisar de diálogo.
Quando Disson está bem:
bolsa aberta = estou disposto a ouvir.
Ele coleta notas, sons e descobertas.
Quando está irritado:
bolsa fechada = não quero ouvir nada.
Isso é excelente porque transforma a bolsa numa metáfora emocional.
Disson não fecha apenas a bolsa.
Ele se fecha.
E quando volta a ouvir, respirar, conferir seu diapasão e perceber o que realmente está acontecendo, a bolsa pode voltar a se abrir.
O verdadeiro conflito de Disson
Aqui eu faria uma mudança importante em relação à ideia de “vilão”.
Disson pode inicialmente parecer o vilão das histórias, mas ele não é o mal da Cidade Harmonia.
O grande conflito de Disson é outro:
ele precisa aprender a governar a própria tensão.
Ele percebe coisas que os outros talvez não percebam. Escuta quando alguma coisa está fora da referência. Identifica descuido. Sente intensamente a falta de atenção, de dedicação e de escuta.
Essa sensibilidade é uma qualidade.
O problema começa quando sua percepção deixa de ser governada e sua emoção assume o comando.
Portanto:
Disson não precisa deixar de ser Disson.
Ele precisa aprender a ficar em sintonia consigo mesmo.
Isso é muito mais interessante do que transformá-lo posteriormente em um personagem simplesmente “bonzinho”.
E aqui está, para mim, uma das melhores possibilidades para todo o universo:
Os Luminhos precisam de Disson.
E Disson precisa dos Luminhos.
Sem os Luminhos, Disson poderia permanecer eternamente em tensão.
Mas sem Disson, a Cidade Harmonia poderia descobrir que harmonia não significa todo mundo fazer a mesma coisa.
Disson introduz diferença, tensão, pergunta, surpresa e movimento.
Ele ensina que uma música bonita não é necessariamente uma música sem tensão.
Da mesma forma, uma vida harmoniosa não é uma vida sem dificuldades, diferenças ou emoções fortes.
Harmonia é aprender o que fazer com elas.
Frases oficiais possíveis de Disson
Eu manteria três, cada uma para uma função:
“Até uma nota diferente pode encontrar seu lugar.”
Essa é a frase infantil e afetiva.
“A dissonância não destrói a música. Ela também pode conduzir a um novo caminho.”
Essa explica o conceito musical.
E a frase que, para mim, resume o arco inteiro de Disson:
“Nem toda tensão precisa desaparecer. Algumas só precisam encontrar seu lugar na Harmonia.”